Sabores da Infância – O inesquecível nhoque caipira!

 

“Aninha corre, vem ajudar a vó a enrolar os nhoques”, essa era a minha frase predileta dos dias em que, ao visitar minha avó paterna, ela resolvia agradar a neta mais velha e fazer sua famosa receita de nhoque caseiro. Eu morava a 400 km de distância dela e morria de ciúmes dos meus primos e primas que tinham o prazer e o privilégio de morar junto a ela. Mas, segundo os próprios me contaram anos mais tarde, ela raramente fazia nhoque, e muitas vezes isso coincidia com a minha chegada à cidadezinha do interior onde ela vivia.

As memórias visual, olfativa e gustativa são incríveis: fecho os olhos e recordo de tudo: a preparação para escolher as melhores batatas, a mesa sendo limpa com álcool, os tomates sendo depelados e picados grosseiramente. A água fervendo lentamente no fogão a lenha. E a cova, muito branquinha, de farinha e ovos dispostas pela mesa de madeira que eu, aos 7 anos, tinha que ficar de joelhos na cadeira para alcançar. E a festa em volta da cozinha? Eram as tias e minha mãe batendo papo, gargalhadas, vozes altas e alegres, sempre! Depois de espremidas, as batatas quentinhas vinham se misturar ao montinho de farinha e a poeira que levantava sempre fazia eu espirrar! Depois da massa pronta, era a parte mais alegre: minha avó fazia “cobrinhas” com a massa, cortava em “dedinhos fofinhos” e eu, com um garfinho sempre a postos, marcava delicadamente os “nhoquinhos”. Depois, ela deixava eu ficar olhando a “mágica” do cozimento: quando jogados em água fervente, aos poucos eles voltam à superfície, cozidíssimos. Daí, só alegria! Ao misturar com o molho de tomates cozido lentamente em fogão a lenha, um abraço! Não sobrava nenhumzinho!

De uns tempos pra cá, eu me peguei tentando imitar minha avó ao fazer nhoque. Meu filho mais novo a-d-o-r-a! Só que, infelizmente, minha receita só dá certo com uma “nhoqueira”, que espreme a massa e molda os nhoques que vão direto pra panela de água fervendo. Não tem como enrolar e cortar os “dedinhos fofinhos”. O molho, faço com tomates pelados italianos, de lata mesmo. Apesar da modernidade, sempre, sem exceção, que coloco um nhoque na boca todas as lembranças me atropelam – no ótimo sentido! E me pego sentindo vontade de correr pro interior e visitar minha avó….

Minha avó, dona Ana (eu sua xará), hoje tem 91 anos. Não se lembra mais da receita do nhoque e de tantos outros pratos deliciosos e quitutes que fazia tão bem: rosa gaúcha (um tipo de pastel recheado de carne moída), bolo de milho verde, sequilhos de nata (nata de verdade, tirada aos poucos do leite de vaca que vinha da fazenda da vizinha), doce de leite….!

Hummmm, viva nossa memória! Viva a infância!

* a receita de nhoque que posto aqui foi herdada de minha sogra, dona Bete, e dá sempre certo…na nhoqueira!

Ingredientes:

1 quilo de batatas

2 ovos

1 colher (sopa) de margarina

1 pacote de queijo parmesão ralado (50g) – opcional

2 xícaras de farinha de trigo

Cozinhar as batatas e amassá-las ainda quentes. Juntar a margarina e deixar esfriar. Bater ligeiramente os ovos e misturas à massa com os outros ingredientes. Ferver água com sal. Colocar a massa na nhoqueira e ir colocando, aos poucos, os nhoques na água. Quando subir à superfície, está pronto. Acrescentar ao molho de sua preferência.

Ana Lima é jornalista, mãe, gourmand e empreendedora. Adora comer e cozinhar para a família e amigos. Sempre em busca de novos sabores, experimenta de tudo um pouco e um pouco de tudo em todos os lugares por onde anda!
Ana Lima
Ana Lima
Ver todos os artigos de Ana Lima

Sugestões


Veja todos os artigos de

6 Responses to “Sabores da Infância – O inesquecível nhoque caipira!”

  1. Andre Sales
    16/09/2010 at 17:18 #

    Hummmmmmmmmm! Que delícia de texto!!! Felizmente, tive o privilégio de experimentar o nhoque da vó Ana. Realmente inesquecível… E a autora do texto não só puxou o dom de cozinhar maravilhosamente, mas também de ser admirada em tudo o que faz. Porque só faz aquilo que realmente quer. Que venham outros textos deliciosos, assim como a vida deve ser…

  2. Mara Maia
    16/09/2010 at 18:16 #

    Muito bom este artigo! Ele nos faz dar uma paradinha para pensar em coisas incríveis que experimentamos e vivemos, esquecidos na memória e perdidos no tempo. O olfato pode ser um belo (re)encontro com nossa memória afetiva que a correria da vida nos tira.
    Parabéns!

  3. João mendes
    16/09/2010 at 21:06 #

    Muito legal,que maravilhosa lembrança do nhoque caipira da vó Ana, acho que neste momento,muitos e muitos netos e netas também estão lembrado com saudades a suas avós que sempre com muito amor e carinho,faz de tudo para ver seus netos felizes,Parabéns Ana Lima por este texto legal…..

  4. Helena Yang
    16/09/2010 at 22:47 #

    Depois que eu li em @FrasesGordinho que o sonho de todo gordinho eh ser neto da Palmirinha, acho que todo gordinho vai ficar com inveja de você por ter a Dona Ana como avò…rsrsrs
    O texto esta delicioso, obrigada por compartilhar conosco!!

  5. Priscila Sérvulo
    18/09/2010 at 4:53 #

    Adorei o post! Super saboroso, assim como a lembrança. Me fez lembrar os quitutes da autora, sempre deliciosos e igualmente inesquecíveis. beijos e faça mais, please, posts e quitutes!!!

  6. Bete Sales
    20/09/2010 at 22:11 #

    PARABÉNS ANA !
    O que comemos na infância na casa da vovó e sempre maravilhoso ser lembrado.Adorei a seu texto!
    Espero que meus netos também quardem o meu nhoque na lembrança com o mesmo carinho. rsrsrs
    beijos!

Envie seu comentário